Vivienne Westwood

Mudança?

Saiu ontem na Ilustrada, da Folha de S.Paulo, uma entrevista bem legal com o britânico Malcom McLaren, criador dos Sex Pistols e responsável pelo impulso ao movimento punk no mundo. A matéria escrita por Marco Aurélio Canônico para marcar os 30 anos de “Nevermind the Bollocks”, primeiro álbum dos Pistols, me fez pensar em algumas coisinhas… Mas, antes de chegar a elas, acho que vale dar um pequeno panorama histórico do que foi o movimento.

Um pouquinho de história

Mudança?

Os Sex Pistols

Aclamado como o último grande movimento jovem de contracultura, o punk tem como marco zero novembro de 1975, data do primeiro show dos Sex Pistols, realizado na St. Martins Art School, em Londres. Ainda que bandas norte-americanas como Television, Stooges e Ramones já estivessem fazendo o punk rock acontecer como gênero musical, foi com os Pistols que o “do it yourself”, lema máximo do punk, ganhou corpo e se alastrou pelo mundo. O grupo foi idealizado pela dupla Vivienne Westwood, até então uma simples dona de loja (chamava-se Sex), e seu marido, o empresário Malcolm McLaren. A idéia de McLaren, como ele até conta na matéria da Folha, era “causar”, fazer sua própria arte, subverter a ordem dominante da Inglaterra de Thatcher.

Mudança?
Vivienne Westwood em vários momentos e o maridão, Malcolm McLaren

Filhos de operários vindos dos subúrbios ingleses e sem voz ativa na sociedade, os punks eram o lado B do bom-mocismo hippie (punk detesta essa idéia, mas é verdade). O som era mais do que básico. Três acordes, tocados em velocidade máxima acompanhando letras que falavam em “no future” e “anticristo”. Tudo isso adornado por um visual radical (o punk foi, antes de mais nada, visual), que incluía alfinetes, calças jeans apertadas, camisetas surradas, tênis rasgados, jaquetas de couro e cabelos coloridos. Um verdadeiro escândalo para a sociedade de então.

Sex Pistols cantando o clássico “God Save the Queen”
E foi esse choque dos conservadores ante o aspecto bizarro daqueles jovens que garantiu a visibilidade do movimento nascente. Ou seja, a moda punk, creditada em muito a Vivienne Westwood, foi um importante instrumento para a divulgação da ideologia que surgia. O visual agressivo era o diferencial entre os conformados e os rebeldes, aqueles que desdenhavam a indústria da moda e do consumo fácil.

Punk de boutique e o “mundo de karaokê”


Mudança?

À esq., fachada da loja Sex, de Vivienne Westwood. Ao lado, algumas criações da estilista no começo da década de 70.

Hoje, três décadas depois, discute-se como os preceitos do punk vêm sendo encarados na sociedade contemporânea. Uma das críticas recorrentes ao movimento é que suas bravatas já foram completamente assimiladas pela onipresente indústria cultural, transformando-o em mais um dos subprodutos do capitalismo. Em outras palavras, a anarquia virou mercadoria e a moda alternativa já não é mais tão alternativa assim. O que fazia sucesso entre os jovens no começo do punk e provocava arrepios nos pais da época não causa mais preconceito: “meninas de família” usam piercing e têm tatuagens, assim como atrizes das novelas. Isso deixou de ser marca registrada de um mundo underground, e o “monstro” foi desmistificado. É fácil encontrar camisetas, que antes eram pintadas e customizadas no fundo de casa, em grandes magazines. Cavalera, Sommer, Alexandre Herchcovitch, Triton, só para citar alguns brasileiros, já cansaram de mostram suas criações inspiradas nos porões de antigamente nas passarelas.

Mudança?

Entre os adolescentes, a maior influencia punk vem, paradoxalmente, de bandas e cantores pop, como Blink 182, Good Charlotte, Green Day e até Avril Lavine. O mais interessante é que nenhum desses jovens assume seguir uma moda e o que é pior: abominam recém-chegados ao movimento por “não conhecerem a filosofia” (pega uma revista teen qualquer que você vai entender o que estou dizendo). Eles encaram mal o fato de tatuagens, piercings e coturnos terem se massificado, criando uma espécie de preconceito e isolamento dentro do próprio grupo. Engraçado isso, né? Mas eles refletem algo muito comum: a disputa pra ver quem é mais punk (ou mais indie ou mais fashion…). E no fundo, no fundo, para mim, acaba sendo tudo igual. McLaren no final da entrevista à Folha, vai mais fundo: “Vivemos em um mundo de karaokê. A conexão das pessoas com a terra e a cultura está desaparecendo rapidamente, substituída pelo mundo globalizado… A indústria musical está morrendo, a moda foi explorada a ponto de ficar saturada e corporativa”. Para ele, esse cenário onde tudo é igual e tudo é “commodity, produto” está abrindo espaço para outra mudança radical. Mas, que mudança? Para onde? Será mesmo? Fica a minha dúvida.
Pós-post

Mudança?
Sex Pistols em dois momentos e, à dir, o malucão Sid Vicicius todo ensangüentado no palco
- Na wikipedia tem um ótimo resumo sobre a evolução da moda punk… Desde o surgimento, passando pelo anarcopunk e indo até os dias de hoje, com o chamado pop punk. É interessante.

- Para quem mora em Londres, rola até o começo de Setembro a exposição “Panic Attack!“, no The Barbican. A mostra traz uma coletânea de fotos, pinturas, filmes, vídeos e performances de artistas que documentaram ídolos como Sid Vicious e o efeito de seu lifestyle na juventude da época. Obras de artistas americanos, como Basquiat, também integram o evento.

- Pra terminar, um trecho do documentário “Islington Squatter Punk”, de 1983:

- Este post foi originalmente publicado no BlogView

Cadê?

Estava pesquisando imagens no Men.Style, o site masculino da Vogue, e simplesmente não encontrei fotos de Vivienne Westwood. Nadica de nada! Nem fotos, nem um comentário sequer. E dizem que ela mandou bem na semana de Milão. O que será que aconteceu entre o site e a eterna rainha do punk? Se alguém souber, me conta!
Abaixo, fotos da coleção Primavera-Verão 2008:

Cadê?

- As imagens são do Frill