Mariana Maltoni
João Pimenta, o homem das silhuetas femininas
Aos 41 anos, João Pimenta sente que sua moda ainda precisa de amadurecimento. Integrante desde 2004 do line-up da Casa de Criadores, sendo um dos nomes mais fortes do evento, esse estilista nascido em São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais, procura consistência antes de sair de uma semana de moda que revela novos talentos, para um evento “mais comercial”, como ele mesmo define o São Paulo Fashion Week. Sem pressa e sem querer “atropelar as coisas”, ele quer experimentar. Busca uma nova linguagem para a moda masculina, utilizando referências femininas. Essa, inclusive, é a verdadeira essência da sua marca que propõe para o homem uma maior liberdade para se vestir. “A moda masculina é muito chata”, declara o estilista com a autoridade de quem no começo da carreira dedicava-se a criar vestidos de noivas no centro de São Paulo. Nessa entrevista concedida ao Descolex no ateliê dele, em Pinheiros, João conta sua trajetória, fala de sua entrada na Casa de Criadores, de seu sítio em Sorocaba e, é claro, de muita moda masculina. Confira!
Descolex: Quando você decidiu que queria trabalhar com moda?
João Pimenta: Sempre quis, desde criança sempre fui apaixonado pelos tecidos desde os lençóis às cortinas. Minha família também trabalhava com costura, mas não acho que seja daí meu interesse por moda. Lá em Ribeirão Preto existe a Policia Mirim e, por meio dela, eu fui trabalhar bem jovem no parte de pacotes da Casas Pernambucanas. Eu adorava! E depois comecei a trabalhar com a vitrine, até que vim pra São Paulo.
D: O que você fazia antes de ser estilista? Poderia contar um pouquinho da sua trajetória?
J.P: Já fiz de tudo; mecânico, office boy, vendedor de loja… Mas sempre quis ser estilista. Em 1985, aos 18 anos, vim morar em São Paulo. Quando cheguei na rua São Caetano, ali na Luz, achei que aquilo era o reino encantado. Fui trabalhando de loja em loja, fazendo vestido de noiva, madrinha, roupa de festa… Até que eu não agüentava mais e resolvi mudar. Em 95, descobri o Mercado Mundo Mix e comecei a fazer só mini-saia pra vender lá. Criava um 300 modelos diferentes e tinham uns mais conceituais, feito de carne, de gilete, de prego, de recortes de revistas pornográficas…
D: E as pessoas compravam essas saias?
J.P: Olha, muito mais do que vender essas peças, aquilo era um exercício pessoal. A moda é um veículo de expressão muito forte e tentar fazer essa comunicação com as pessoas faz com que você comece a entrar em sintonia com elas. Eu não vendia, mas conseguia encaixar varias delas em editoriais… (risos).
D: E você abandou os vestidos de festa? Não faz mais feminino?
J.P: Faço vestido muito raramente e são mais para as amigas, que acabo nem cobrando. Exatamente pra deixar claro que eu não vivo mais disso. Mas o feminino ainda é presente na minha coleção. É só dar uma olhada na loja aqui em baixo. Eu acho que criar para o feminino é até mais bacana.
D: Mas porque, então, você só desfila moda masculina?
J.P: Eu sinto uma carência na área. Vejo aqui na loja os meninos provando as roupas femininas, procurando uma coisa diferente… Para as mulheres já se experimentou de tudo, enquanto que para o homem uma apequena alteração já se transforma no diferente. Acho que o que evouli agora é a moda masculina. Ela vai ficar cada vez mais próxima do feminino até que tudo vire uma coisa só, unisex.
Mariana Maltoni
O estilista em sua loja em Pinheiros
D: Mas você não acha que há uma barreira cultural, pelo menos aqui no Brasil, que impede essa evolução?
J.P: Essa história de que somente a roupa fala por você, de que ela determina quem você é o que trava os homens brasileiros. Essa associação tá longe de ser real, mas realmente atrapalha os meninos.
D: Aliás, essa discusão dos elementos femininos no guarda-roupa masculino é o tema da sua última coleção, né?
J.P: Sim. Eu criei uma silhueta onde os homens ganhavam culote, tinham a região dos quadris super destacadas. Era pra chutar o pau da barraca mesmo. A moda masculina é muito chata e eu quis causar esse desconforto. O homem tem silhueta, mas tudo que se faz pra ele é muito quadrado, sabe? Mostrei um homem seguro, que se apropia do feminino e se sente lire pra experimentar. E isso deu uma coisa sexy à coleção.
D: E porque a trilha de picadeiro? Porque os modelos entravam com os braços afastados dos quadris?
J.P: No sub-texto de desfile, eu quis trazer essa coisa do palhaço, que nada mais é do que uma defesa. De certa forma, os meninos estavam travestidos, mas pro palhaço tudo pode, porque ele tem essa máscara. Já os braços arqueados era pra mostrar que esse homem duro tinha uma sensação de certo estranhamento com seus quadris enormes, era pra brincar com esse novo. Mas eu sei que os modelos bem que gostaram da proposta. Na fila pra entrar na passarela, eles ficavam ajeitando os quadris pra deixar com mais volume… Foi bem engraçado.
D: Você fez faculdade de moda?
J.P: Não. Eu não tenho formação acadêmica. Quando cheguei a São Paulo eu menti no meu primeiro emprego dizendo que sabia desenhar. Lembro até hoje que minha primeira cliente era uma senhora do interior e eu tinha que fazer um vestido de festa, desenhando na frente dela. Fiquei em pânico! A sorte é que ela sabia muito bem o que queria e gostou muito do meu atendimento, mesmo sem desenho (risos). Gostou tanto que foi me elogiar pro gerente. Isso me fez ganhar uns pontos com ele e me sentir confortável pra dizer que não sabia desenhar. E ele foi muito bacana e começou a me ensinar tudo. É uma história engraçada, mas eu não recomendo.
D: Por quê?
J.P: Porque eu demorei muito pra dar credibilidade ao meu trabalho. Acho que só fui acreditar que sabia fazer há pouquíssimo tempo. Isso sem contar que você perde muito tempo quando você não sabe a técnica.
D: E como pintou o convite de desfilar na Casa de Criadores? Como foi seu primeiro desfile?
J.P: É aquela história conhecida. Há cinco anos comecei a fazer roupas para os amigos e a coisa foi fazendo sucesso. Até que um dia eu e o Rodrigo Marques juntamos uns modelos, pegamos umas peças e fizemos umas fotos. Eu mandei o material pro André Hidalgo, a gente ficou um tempo se falando até que um dia surgiu a oportunidade e ele me convidou. Achei que ia detonar no primeiro desfile, só que quem detonou comigo foi a crítica. Daí, eu comecei a ver que eu não era o máximo e fui trabalhando em cima dessas críticas para melhorar.
D: Então você aceita criticas numa boa…
J.P: Eu acho a crítica fundamental. Ela me serve de termômetro para perceber o que está acontecendo, pra evoluir. Sinto que alguns estilistas mais conceituados atingiram um patamar onde eles não têm mais crítica e, por isso, não evoluem.
Mariana Maltoni
Para ele, SPFW só daqui um tempo
D: Pensa em ir para um SPFW, por exemplo?
J.P: Sim, claro. É um sonho. Há um ano, eu queria isso muito rápido, mas comecei a perceber que meu trabalho é mais experimental. Meu processo tem outro timing. Não adianta ir para um evento mais comercial sem estar pronto. Sinto que a moda no Brasil vai ser muito grande e eu tenho vontade de fazer parte dessa história que ainda vai acontecer. Por isso, não tem porque ficar atropelando as coisas. Eu preciso de consistência, entrar em sintonia, sacar as linguagens. Além do mais, estou muito desanimado com patrocínio e apoio. A relação é sempre um horror, você sempre está preso…
D: Como as pessoas comuns influenciam seu trabalho? Qual é sua fonte de inspiração?
J.P: Eu tento buscar inspirações nas coisas simples. E acho muito bacana quando as pessoas comuns, fora do universo de moda, absorvem minhas idéias. No começo achava difícil uma pessoa de um universo como o meu, da roça, da simplicidade, pudesse dizer o que vestir ou o que usar. Mas descobri que são exatamente os contrapontos – pobre e rico, bonito e feio, homem e mulher, chique e cafona – o meu forte. Aprendi a pegar todo essa pauperismo do meu passado e transformar. Moda tem que vir de dentro.
D: Você segue tendências em suas coleções?
J.P: Tento. Mas acredito muito no inconsciente coletivo. É só prestar atenção nas ruas, nas necessidades das pessoas que vêm aqui na loja… Não adianta você querer ir contra certas tendências. É óbvio que o estilista tem a obrigação de desenvolver uma linguagem prórpria, mas isso não impede de ele seguir certos desejos que estão no ar.
D: O que te faz sentir mais vaidoso?
J.P: Ver o resultado de um trabalho.
D: O diário de quem você gostaria de ler?
J.P: De pessoas que estão por ai pela rua, os mendigos.
D: Quando e onde você fica mais feliz?
J.P: Em meu sítio, em Sorocaba, cuidando dos animais. Sou super da roça, adoro mexer com terra. Tanto que vou pra lá quase todo fim de semana.
D: Então você não é um cara de balada…
J.P: Nos últimos tempos, tenho ficado um tanto enclausurado, tipo, concentração. Pra mim é muito importante poder aproveitar o dia todo… Tenho muita coisa pra fazer e não dá pra perder o dia me recuperando de uma noitada. Prefiro me preservar. Além do mais, sinto que a noite é repetitiva. São sempre as mesmas coisas, as mesmas caras…
D: O que é chique hoje? Você concorda com os estilistas que falam que é possível usar tudo hoje em dia?
J.P: Acho que hoje e sempre chique é ser autêntico. Ou seja, dá pra usar tudo, desde que isso não mude sua personalidade.
D: Que tipo de música você gosta? O que anda ouvindo no momento?
J.P: Gosto de todo o tipo de musica, mas devido a trilha do meu último desfile, tenho procurado muito pelas músicas de picadeiro.












