Quando eu peguei o release da coleção de inverno 2010 da estilista Julia Valle, achei que eu tava lendo grego. “Ou ela, ou a assessoria dela viajaram grandão”, pensei. “Uma máquina de escrever, produzida nos anos 50, define as formas, cores e modelagens da coleção TNWMLC. Seu layout de teclas inicial, o amplamente reconhecido QWERTY, se permite reconfigurar, a partir de um acidente cirúrgico, para outras propostas de praticidade e desconforto”, diz o começo do texto. O que significa isso? Grego. Mas, depois que eu assisti ao desfile de sua 4ª coleção dentro do Prêmio Rio Moda Hype, que abriu o Fashion Rio nesta noite de terça, tudo fez sentido. “Foi eu quem escreveu o release. Parece que não escrevo pro povo da moda, mas pra velho”, disse ela pra mim numa rápida entrevista num banquinho ali do Pier Mauá. Digo rápida, pois, sinceramente, minha vontade era de ter passado umas boas horas papeando com essa mineira de Belo Horizonte, que diz adorar plantar o que come. Suas ideias e opiniões são claras e inteligentes. Desenvolvendo uma moda bastante autoral, fruto de um processo criativo muito particular, Julia, na minha humilde opinião, é uma grande promessa das passarelas. Afinal, uma pessoa com esse talento, há de fazer sucesso. Eis os melhores trechos de nossa conversa:
Descolex: Como você se interessou por moda?
Julia Valle: Eu sempre achei que odiava moda. Com esse meu tamanho (ela veste 32!), nunca conseguia comprar roupas. Então, eu fazia as minhas próprias… Ou mudava as que eu comprava. Meu pai costurava já, apesar da profissão dele ser arquiteto. Então, eu aprendi um pouco com ele. E eu nunca entendi essa lógica da moda, do “que está na moda”. Na escola, todo mundo tinha uma bolsa da Company, mas eu nunca quis ter uma, sempre procurei uma moda minha. Acho que essa necessidade de ser igual é muito do brasileiro.
Descolex: Como assim?
J.V: Eu tenho umas viagens, umas teorias minhas pra explicar a maneira de vestir do brasileiro. Provavelmente não seja a certa. Acho que essa nossa herança escravocrata fez com que a gente queira sempre se vestir para o outro. Com tantas diferenças num país como nosso, a moda acabou funcionando como um espaço que a gente encontrou para ser igual.
Descolex: Você estudou moda?
J.V: Estudei. Primeiro, me formei em comunicação social pela UFMG. Em 2005, fui trabalhar como designer gráfica na Alphorria. Já com um pé no mercado, vi que precisava buscar mais conhecimentos e, como eu já tinha uma relação com os países escandinavos (a irmã dela mora na Suécia), resolvi ir pra Dinamarca. Fiz uma espécie de mestrado de moda na Designskolen. Próximo ao final do curso fui convidada a estagiar no atelier do estilista dinamarquês Henrik Vibskov. Daí, não parei mais. Voltei ao Brasil e trabalhei três anos na Printing, onde realmente descobri o que é ser minuciosa e preciosista, na Faven aprendi muito sobre tricô e na Redley conheci o lado mais leve da moda. Desde 2008 crio pequenas coleções autorais, e a parte boa é que dá vontade de continuar na moda.
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Looks da coleção de inverno 2011
Descolex: E o que te interessou na moda dinamarquesa?
J.V: Eles têm uma concepção de corpo e moda diferente. A roupa respeita o físico das pessoas, não é imposta por um padrão. Acho que a minha moda é assim por causa dessa influência: minha roupa tem que se comunicar com que a veste, funcionar e fazer sentido para ela.
Descolex: Quem são seus estilistas preferidos?
J.V: Rei Kawakubo, Junya Watanabe, Martin Margiela… Percebo que há muito tempo a cobertura do corpo com tecidos não mudou muito, as coisas evoluíram, mas continuam muito iguais. Me interessa quem busca algo diferente, as pessoas que propõem novos caminhos para a moda.
Descolex: No release da coleção, você fala que partiu de uma máquina de escrever. Como é seu processo criativo?
J.V: Acho que eu começo pelo lado errado. Costumo trabalhar com objetos de estudo que não me fornecem imagens em primeira instância e daí as formas vão surgindo com os estudos, as manipulações. A máquina de escrever, por exemplo, surgiu porque eu estava procurando um teclado que fosse mais confortável para digitar. E, por uma questão de satisfação pessoal mesmo, de querer entender como funciona a disposição das letras, que eu acabei chegando nessa máquina. Enfim, não parto de croquis, mas de formas que serão transformadas em modelagens. E existe uma curiosidade muito grande para saber o que aquela forma vai virar quando ocupar o tridimensional. E a estética final das peças fica quase em segundo plano.
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Clica pra ver grandão!
Descolex: Tá, mas como uma máquina de escrever vira molde? Ainda não captei.
J.V: Vamos supor que você digite uma palavra, “amor”. Se você ligar os pontos de uma letra a outra – A ao M ao O ao R – você desenha uma forma geométrica. É a partir dessa pequena forma geométrica que eu começo a desenvolver a modelagem. Tanto que em cada peça da minha coleção o verso do tecido é todo carimbado com a palavra que eu usei como ponto de partida.
Descolex: Como jovem criadora, o que você acha que falta para os novos talentos se inserem de fato no mercado brasileiro?
J.V: Hoje, existem muitos espaços onde um jovem talento pode apresentar seu trabalho. Temos o Rio Moda Hype (Rio de Janeiro), a Casa de Criadores (São Paulo), o Dragão Fashion (Fortaleza)… Mas, seja na moda, seja em qualquer outra área, falta aos jovens criadores o reconhecimento por parte do mercado e a profissionalização do trabalho. Não posso entender que um estilista consiga de fato realizar um bom projeto se ele não tem uma equipe que o ajude a desenvolver esse trabalho. Também faltam nas academias ou escolas brasileiras um maior aprofundamento no conteúdo teórico, mais prática e uma maior interdisciplinaridade na grade curricular. Penso também que a moda brasileira como um todo terá maior espaço quando forem melhorados os níveis de salários, treinamentos, capacitação e especialização. Dessa forma as pessoas poderão ter mais acesso à cultura e evoluir na profissão.













