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2 fev

Eba! Uma das “seções” mais comentadas do blog em 2009 tinha que voltar esse ano, né? Minha intenção pra 2010 é trazer conversas com diversos profissionais ligados direta e indiretamente com o mundo da moda. Não sei se é pretensão minha, mas acho legal mostrar que nesse universo dá pra se trabalhar com muita coisa sem ser estilista.

DivulgaçãoBeto-Guimaraes
Beto Guimarães

E quem abre os trabalhos é o consultor de marcas Beto Guimarães. Com mais de 15 anos no mercado de moda, Beto é responsável por várias campanhas e projetos de identidade visual para grifes como Maria Garcia, Huis Clos e André Lima. A Maria Garcia é sua parceria mais sólida – a marca tem cerca de 10 anos e quase todas as campanhas foram feitas por ele, com exceção talvez da primeira. Recentemente, ele também desenvolveu a primeira campanha da Simone Nunes, que apesar de já ser conhecida, nunca tinha investido em publicidade ou em um projeto de identidade visual. Nessa entrevista, ele explica como é esse trabalho de construir a imagem que expresse a essência de uma marca e comenta a quantas anda a publicidade e o marketing de moda feito no Brasil na opinião dele – “Se você pensar que moda tem a ver com o novo, com mudança, então nosso formato de atuação: desfile/campanha/evento-com-celebridade está desgastado”.

Descolex: O que faz um consultor de marca?
Beto Guimarães:
Existem vários tipos de consultores de marca que fazem trabalhos bem diferentes uns dos outros. O meu território é image branding: crio imagens que ajudam a expressar a identidade de cada marca, para estabelecer uma relação com seus públicos; imagens que são, além de um objeto estético, um instrumento de comunicação.

D.: Mas, o que é branding?
B.G.:
Ele surgiu no final dos anos 80 e virou febre nos anos 90, até se popularizar durante esta década. Branding é um dos alicerces do marketing e da estratégia de negócio, ele tem como fundamento os atributos tangíveis e intangíveis de uma marca, como benefícios emocionais e funcionais, por exemplo.

D.: Qual a chave para o sucesso de uma marca?
B.G.:
Foco e saber o que tem a dizer. Com tantas marcas, possibilidades e pouco tempo, o consumidor que não for impactado de primeira dificilmente dá uma segunda chance para uma marca. Se a marca tem clareza dos seus diferenciais e onde quer chegar, certamente dará menos voltas, perderá menos tempo e dinheiro.

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Campanha da grife Simone Nunes

D.: E como você vê a internet hoje no processo de construção de uma marca? Quais as possibilidades dessa mídia?
B.G.:
A internet é uma realidade que não dá para ignorar, ela se impôs como um território obrigatório, por outro lado, o espaço virtual está lotado, poluído e se você quiser achar alguma coisa que vale a pena, vai ter trabalho… Do que adianta ter Twitter, Facebook, conteúdo pra celular se a marca não sabe o que tem a dizer? Acho que o que é novo hoje é olhar para o espaço virtual e o real como um só, sem separações: coisas que começam no virtual e passam pro real e vice versa, criando troca de experiência entre os dois mundos, tornando-os complementares.

D.: Lá fora parece que as empresas já compreenderam melhor que o consumidor e o mercado mudaram. Tenho a sensação que as grifes gringas já trabalham melhor e de forma diferente suas marcas. Mas, aqui no Brasil, parece que o marketing voltado para a moda ainda não é bem-desenvolvido… O que você diria sobre isso?
B.G.:
Se você pensar que moda tem a ver com o novo, com mudança, então nosso formato de atuação: desfile/campanha/evento-com-celebridade está desgastado. A procura por novos formatos que envolvam o consumidor é um desafio constante, e a resposta ainda não está pronta. Acho que os desdobramentos, principalmente de uma campanha de moda, devem transcender as páginas das revistas para ir ao encontro dos consumidores.

D.: Quais marcas ganhariam nota 10 em branding, na sua opinião?
B.G.:
Fora as óbvias, as gringas que já viraram case, eu adoro o trabalho da Osklen, da Le Lis Blanc e da NK Store; acho que cada uma, do seu jeito, faz o consumidor sentir a essência delas.

D.: Como definir a imagem que será passada ao consumidor?
B.G.:
É necessário saber como a marca é percebida, como ela quer ser percebida e analisar o gap entre as duas realidades, levar em conta seu estilo, seus diferenciais, seus concorrentes e seus objetivos estratégicos de negócios. É um trabalho primeiro analítico e depois criativo, que eu chamo de estratégia criativa.

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Campanhas da Corello e Maria Garcia

D.: Há quem diga que ainda copiamos editoriais ou campanhas de moda do exterior. Qual a sua opinião sobre isso?
B.G.:
Tenho a mesma sensação… E nem entendo direito por que fazer isso, se a parte legal e divertida do nosso trabalho está justamente na criação de uma imagem. Se uma imagem já está pronta, qual é a graça de repeti-la?

D.: O que te levou a trabalhar com moda e com consultoria de marcas?
B.G.:
Eu passei por tantos lugares diferentes fazendo coisas diferentes, sempre com moda. Fui vendedor de loja, produtor de revista, de desfile, gerente de marketing, vitrinista, diretor de arte… Eu conheci a moda por vários ângulos. Até que fui contratado como gerente de brand creation na FutureBrand, empresa que é líder mundial em consultoria de marcas. Ao sair de lá, voltei para a moda repaginado, com um novo olhar, com um novo processo de criação.

D.: O que estudou?
B.G.:
Estudei artes plásticas e publicidade. Além disso, fiz cursos variados, desde direção de arte para cinema até marketing emocional, passando por História da Arte com Rodrigo Naves, Arte Contemporânea com Agnaldo Farias, e Design, Estilo e Decoração no século XX com João Pedrosa etc.

D.: Quem foram seus mestres?
B.G.:
Eu sempre fui interessado por imagem: de revista, cinema, videoclipe, fotografia, capas de CDs, mas quem interferiu de um jeito definitivo no meu jeito de perceber imagem foi a Clô Orozco, da Huis Clos. Foi ela quem deu meu primeiro trabalho importante em São Paulo.

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Campanhas da Paula Ferber e Le Postiche

D.: Dá para ganhar dinheiro sendo um consultor de marcas no Brasil?
B.G.:
Dá, até porque, como eu já falei, existem muitas possibilidades de formato em consultoria de marcas, e muitas dessas marcas ainda trilham caminhos repetidos, ou sem um direcionamento planejado.

D.: O que você diria pra quem quer seguir carreira semelhante à sua?
B.G.:
Ser curioso, olhar ao redor, ter interesse por assuntos diversos, como música, cinema, artes em geral, sair pra dançar, olhar as pessoas na rua, viajar sempre que puder, ir a museus, comprar livros, conhecer gente, viver uma história de amor, se jogar… Porque para fazer esse trampo é preciso ter repertório, e pra ter repertório, só vivendo!

D.: O que é preciso para ser reconhecido?
B.G.:
Coerência, ética, talento, contatos e um bocado de sorte.

D.: O que te inspira hoje?
B.G.:
Meus amigos, minha casa, ler, ouvir música, viajar, a Helena Sasseron, que trabalha comigo, filmes, o ócio (quando consigo) e a rua (eu não sei dirigir, por isso ando muito a pé, a pé o mundo tem outro ponto de vista).

D.: Quais são suas fontes de informação? Você costuma ler blogs?
B.G.:
Folha, Wad, Tokion, Vogue Itália, Elle Decor, Mag, eu adoro também a Kids Wear, Self Service e a Fantastic Man, os sites johnconnellypresents.com, vvork.com, saatchigallery.co.uk, bantjes.com, springwise.com, trendwatching.com, droog.com, facehunter.com, rgvogue.com.br, dailycandy.com, influxinsight.com, psfk.com, iconoculture.com, marketingprofs.com, flavorpill.com, pigmag.com, buildingbrands.com e os blogs Opequi, hypercool, The Sartorialist e vários outros de moda de rua.

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Campanhas das grifes infantis Green e You

D.: Que benefícios uma marca pode ter ao contratar um consultor?
B.G.:
Definir seu espaço, traduzir sua identidade em imagens e, com isso, ser melhor percebida ou compreendida.

D.: Recentemente, o WGSN fez uma seleção das melhores campanhas publicitárias de moda da América Latina para o verão 2010, e duas campanhas assinadas por você estão na lista – coincidentemente, de duas marcas infantis, Green e You. Desenvolver uma campanha para uma grife infantil é diferente de desenvolver uma campanha para uma grife adulta?
B.G.:
Nos dois casos se está falando com um adulto, já que quem compra roupa pra criança é sempre um adulto. A particularidade está não no fato de ser marca para uma criança ou para um adulto, mas sim no fato de que cada marca – independente da faixa etária consumidora – determina um processo próprio de criação: o da Green é totalmente diferente do da You, os objetivos e formatos não são os mesmos. O contato com esses universos tão diferentes traz surpresas diárias ao meu trabalho, provoca sempre emoção. Pode parecer um pouco romântico, emocional até, mas eu sou meio assim, daí o nome da minha agência ser Carme, que é sinônimo de verso, poesia. Isso já diz tudo.

4 dez

Quarta eu fui na MTV gravar uma participação no Acesso. Mas, como o programa passa num horário em que tá todo mundo trabalhando, meu primo querido láaa do interior, fez a gentileza de gravar e me mandar por e-mail. Quer ver como foi o mico? Assiste aí:

10 set

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As 20 participantes do do Brazil’s Next Top Model

Gente, hoje só se fala de Fashion’s Night Out… Mas esta quinta tem outra coisa legal rolando: a estreia da nova temporada do Brazil’s Next Top Model. Confesso que nunca fui muito fã, mas fazendo essa entrevista pro IG Moda com o Roberto D’Ávila, diretor do programa, eu fiquei bem com vontade de assistir. Vou dar um pulo lá na Oscar Freire pra ver como tá o evento e depois eu volto pra casa pra pegar o comecinho do reality. Ah, depois eu conto aí no Gengibre do Descolex (o player à direita) o que eu achei do FNO, ok? Confira a entrevista!

O America’s Next Top Model pode até ser divertido, mas a versão brasileira do programa, que estreia nova temporada nesta quinta, promete ser muito mais emocionante. O motivo? Dessa vez a direção otpou por candidatas bem diferentes. Entre as 20 semifinalistas selecionadas, há uma lésbica, uma com histórico de bipolaridade e uma moradora do bairro carioca de Cidade de Deus…
Todas elas, brigando por um contrato de dois anos com a Ford Models, uma capa e um editorial da revista Gloss, uma campanha pra C&A e outra pra Intimus, além de um guarda-roupa novinho, um curso de inglês na Irlanda e um final de semana em Paris.

O IG Moda entrevistou o diretor do reality Roberto D’Avila para saber mais detalhes do programas. Os destaques dessa conversa, você confere abaixo!

Como foi o processo de seleção das novas candidatas?
Roberto D’Avila:
A ferramenta básica da seleção é a inscrição no site. Tivemos mais de 2600 candidatas em um período que foi praticamente metade do ano passado. Foram 45 dias de inscrição. Além disso, a Sony faz alguns pequenos eventos associados a operadores locais, como no Rio, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba etc. Eu não sei todos os lugares, mas também recebemos um bom material por esse meio. Depois disso, a gente faz uma pré-seleção e entrevistas individuais de uma lista grande, até chegar nas 20 que ingressam no programa.

O que muda nessa edição em relação às duas temporadas passadas?
R.D:
O programa está mais vibrante, mais colorido, mais sexy, mais diverso. Nossa seleção desse ano foi muito feliz tanto no quesito potencial de modelo, como no quesito personalidade. O que não muda é o que se mostrou vencedor no ano passado, o time de talentos pra lidar com essas candidatas: Fernanda Motta, nossa diva apresentadora, os jurados Erika Palomino, Duda Molinos e Dudu Bertholini, nosso ‘coach’ Pazetto e o mestre das passarelas Namie Wihby.

Divulgação
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Namie Wihby, Erika Palomino, Pazetto, Duda Molinos e Dudu Bertolini

Vocês investiram numa maior diversidade nessa temporada. Qual a expectativa em misturar meninas com perfis tão diferentes?
R.D:
Uma explosão (risos)! Brincadeira… Esperamos o que conseguimos: uma temporada mais divertida e surpresas em todos os episódios. O contraste de meninas sem nenhuma experiência, como a Tatiana da Cidade de Deus, com outras com alguma experiência e tão bonitas quanto, gera um interesse e uma curiosidade pra ver onde isso vai dar. Esperamos que o público faça suas escolhas e torça por elas.

O fato de existir uma versão americana e de já terem sido veiculadas duas temporadas da versão brasileira no programa não torna as concorrentes mais preparadas para os desafios? Como vocês pretendem surpreendê-las?
R.D:
Nesse sentido o formato é bastante inteligente. As meninas nunca sabem com antecedência o que vai acontecer. Além disso, as provas e as dificuldades mudam sempre. Claro que com a invasão de realities na TV hoje, as meninas já vem com uma préconcepção de estratégia ou de padrão de comportamento, mas a gente faz tudo pra quebrar e reverter essa expectativa o tempo todo. São eliminações surpresa, provas em momentos inesperados e muita, mas muita pressão em cima das cabecinhas delas (risos).

Pode adiantar uma prova que elas terão que passar?
R.D:
Passarela quase sem poder enxergar no alto de um edifício histórico ta bom pra você?

Como é o processo de eliminação das candidatas? No programa, obviamente, ele parece ser bem mais rápido do que realmente deve ser… A direção opina também?
R.D:
Ah! A eliminação demora bastante. Imagina comentar e avaliar uma a uma as 20 candidatas? O tempo de estúdio vai diminuindo quando vão saindo as meninas, mas é bem maior do que aparece na tela. O programa tem que se encaixar numa janela de uma hora e a eliminação dentro disso não passa de 10 minutos. Só a gravação da eliminação chega a durar três horas. É um processo bem rico e detalhado, mas naturalmente se vê apenas um resumo dos melhores momentos.

A versão brasileira do programa “pega menos pesado” com as meninas, em relação ao original americano. Porque vocês optaram por essa linha na direção do reality?
R.D:
O que muda é o posicionamento do programa. A versão brasileira é bem mais fashion que a americana. O ANTM tem muitas coisas mais próximas do game show, da gincana. O nosso tem o pé mais fundo na moda e se dedica a efetivamente preparar essas meninas pro mercado. Desde os talentos (jurados, treinador, etc) até os convidados, trabalhamos com os melhores profissionais da moda do país. Não é assim no americano.

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Fernanda Motta, a apresentadora do BNTM

2 jun

Mariana Maltoni
Renato Kherlakian

Como se fosse uma novela que mistura tragédia e pastelão, a vida de Renato Kherlakian, 59, deu nos últimos anos uma reviravolta. Criador da Zoomp e pioneiro do jeanswear no Brasil, o estilista assiste sua grife, criada em 1974, ruir nas mãos do grupo I’M (Identidade Moda). Pertencente à holding HLDC, dos empresários Enzo Monzani e Conrado Will, a I’M pretendia ser o maior grupo de moda nacional e já no final de 2007 reunia sob seu guarda-chuva as marcas Alexandre Herchcovitch e Fause Haten. Não demorou muito para que o ambicioso plano se revelasse um dos grandes engodos da curta história da moda brasileira. Em março de 2008, Herchcovitch e Fause Haten deixaram o grupo. Já em fevereiro deste ano, o mais recente capítulo deste folhetim: a Zoomp teve sua falência decretada para alguns dias depois ter a ordem suspensa via liminar judicial. Com o fim do seu contrato de prestação de serviços e de não-concorrência com a grife, Kherlakian agora quer dar a volta por cima. Enquanto acompanha atenciosamente a moribunda Zoomp se debatendo entre dividas trabalhistas e processos judiciais, o estilista tenta se reerguer com a criação de uma grife de jeans premium feminino, a RK Denin. Eu fui ao novo showroom do estilista, nos Jardins, para conferir as roupas e conversar com Kherlakian. Nesta entrevista, ele fala de seus novos planos, da fase em que se encontra o mercado de jeanswear nacional com a entrada de grifes estrangeiras e até de sua grande paixão: a gigante coleção de lápis.

Descolex: Depois de 39 anos de mercado e de tudo o que você passou com a Zoomp nos últimos tempos, você não cansa? O que te dá essa energia para lançar uma nova grife e recomeçar do zero?
Renato Kherlakian:
Eu construí um império com a marca Zoomp absolutamente do nada. Não digo de moda, mas de um jeanswear, de um casual. Provavelmente seja nato, esteja na minha corrente sanguínea, mas na verdade eu fiz muito nesses anos todos. Meu desejo era ter sido um diretor de cinema pra poder comandar, dirigir, criar cenários e tudo mais. Acabei me formando em direito. Mas, a minha atuação na moda e na confecção atendeu completamente o meu desejo. A própria direção criativa da Zoomp, tanto nas vitrines, como nos desfiles, nas coleções, nos show-rooms e no desenvolvimento de cada uma das peças absorveram esse meu sonho. E hoje, mais do que nunca, em prol dessa volta ao mercado, eu talvez tenha a vontade renovada. Porém, com uma visão muito clara e nova do cenário pra próxima década.

D: Como foi receber a notícia do decreto de falência da Zoomp?
R.K:
A minha reação é uma coisa tão pessoal, que eu prefiro evitar comentar. Sem palavras.

D: Deve ser difícil…
R.K:
Sem palavras.

D: Que lição você tira com toda a história de sucesso e declínio da Zoomp para esta nova marca?
R.K:
Como resultado, as experiências passadas são absolutamente catastróficas. Mas, eu tenho comigo uma expressão que eu não consigo alterar: “qualidade, qualidade, qualidade”. E essa qualidade não está somente no seu espaço, no tapete de seu show-room ou na iluminação dele. É a qualidade embutida em todos os setores que possam estar ligados ao desenvolvimento de um jeans. Tanto no requinte de desenho, no acabamento, na forração dos bolsos, nos aviamentos, como também na própria distribuição para a clientela e, principalmente, na vestibilidade das peças. Meu conceito extremo hoje é fazer com que todas as bundas fiquem absolutamente elevadas.

D: Em quantos pontos de venda você vai trabalhar a RK Denim? Em que regiões do país?
R.K
: O objetivo são 200 pontos de vendas em todo o Brasil. Alguns já estão fechados, muitos contatados e outros ainda a serem conquistados no decorrer do semestre ou dos próximos lançamentos. Eu farei quatro lançamentos por ano. Nesse primeiro, nós já tivemos um objetivo alcançado extraordinário.

Reprodução
Renato apresenta seu novo jeans a compradora

D: Pensa em fazer uma linha masculina? Pra quando?
R.K:
Há um business plan para três anos. Ele envolve uma série de estudos, projetos e possibilidades. Ao voltar pro mercado, eu vou sondar mais e melhor o que será perfeitamente possível, e pra onde vai e pra onde não vai a RK.

D: Como é essa primeira coleção? Quais as referências e inspirações?
R.K:
O jeans da RK é conseqüência de uma avaliação da mulher de hoje, quais são seus desejos e ambições. Independentemente das academias, drenagens e cirurgias plásticas, fui procurar saber o que exatamente ela tem em mente como valorização do seu corpo, de sua estética. Pra mim, a mulher brasileira tem uma nova proporção, uma nova silhueta. E ela também tem novos hábitos, novos costumes e, mais do que nunca, ela está muito alinhada com o que acontece no mundo. Ela já tem uma noção muito clara do que é bacana, do que é descolado. Por isso, a RK é criada com uma série enorme de informações, um jeans muito mais chique, muito mais elegante… Fugindo do que hoje é o grande mercado nacional. Atualmente, há uma presença muito forte dos jeans gringos como conceito e os jeans nacionais indo pra uma massificação enorme. Isso vem ocorrendo com marcas que eram concorrentes minhas, além da própia Zoomp, que seguem pra um segmento mais popular, mais barato, despido de qualidade. Você tem que ver meu jeans do avesso pra depois concebê-lo no direito. São peças feitas numa linha de produção absolutamente de alfaiataria. Sem me preocupar efetivamente com detalhes que possam baratear custos.

D: Parece que os estilistas descobriram só agora, com esse boom dos jeans premium, que uma calça pode ter muito exercício de modelagem. Como rola essa história com você? Como é o trabalho de desenvolvimento de uma calça jeans da RK?
R.K:
Eu tenho uma grande vantagem porque faço as provas de roupa em casa. Toda anatomia, a base da minha prova é minha esposa. E essa análise constante faz com que haja uma adaptação muito fácil da modelagem que eu estou desenvolvendo. Além disso, hoje em dia, a própria evolução da tecnologia está a serviço da criação. Equipamentos permitem que eu tenha facilmente o modelo em 3D, podendo, assim, aplicar novas medidas e proporções no corpo dessa mulher. É uma ciência enorme! Você coloca um japonês louco do seu lado e ele faz o que você estiver a fim. Mas isso também só é possível graças à Cosmak, que está fazendo toda a produção do meu jeans, colocando à minha disposição todo equipamento que eu tiver necessidade.

D: Quais lavagens você trabalha nessa primeira coleção? Alguma novidade?
R.K:
Aí eu tô no tempo antigo (risos). Todo meu trabalho com beneficiamento do jeans é tomado como base o início dos anos 70, quando o índigo bruto ganhava banhos de imersão de pelo menos 30 horas para fazer uma quebra da fibra e manter a coloração dele. Ou seja, todos o jeans da RK têm como principio a imersão e depois a realização dos acabamentos necessários. E os desgastes são feitos manualmente e não com toda a ciência atual de produção de larga escala.

D: Você quer dizer que os jeans são desgastados um a um?
R.K:
Um a um. Se você pega um jeans tradicional novo, nota-se que os desbotes na bunda deformam a proporção. No meu jeans, o desgaste é como se fosse com o tempo de uso, andando de moto ou de bicicleta… É só no selim, só no traseiro, muito localizado, quase imperceptível. E isso só é conseguido com o trabalho artesanal. O hecho a mano pra mim é muito importante.

Reprodução

Renato e o jeans de sua RK Denim

D: Quando começam as vendas pro varejo? Qual faixa de preço?
R.K:
A marca chegou às lojas na segunda quinzena de março, numa faixa de preço que vai de R$ 450 a R$ 750.

D: Vi que todas as calças estão um pouco afastadas do corpo… Qual é a silhueta que você está trabalhando? Está fazendo skinny, por exemplo?
R.K
: Essa daqui é uma skinny. Tenho também as pernas retas, a skinny cigarret, as bocas de sino, pantalonas… Na verdade são quatro linhas: jeanswear, jeanswear alfaiataria – linha de produção de alfaiataria com matéria-prima denim – , a alfaiataria demi couture – é quase que uma alta costura, mas com tecidos menos nobres – e as pantalonas.

D: Qual é o objetivo da “moeda-tag”, seu novo símbolo?
R.K:
A idéia é dar um novo peso, um novo valor ao denim nacional, visto que as (marcas) gringas estão invadindo o mercado. E isso coincide muito com essa depressão que está se vivendo na economia mundial. A moeda só não presta para o cofrinho das mulheres, muito pelo contrário, já que a vestibilidade não permite (risos).

D: Aliás, você está indo na contramão dessa crise, lançando uma marca nova…
R.K:
É preciso ter paciência em relação à crise. A partir do momento que eu tenho a oportunidade de apresentar meu trabalho, a convicção do comprador na marca é de pronto manifestada. Apesar de estar na contramão do mercado, existe um vazio nele. E essa brecha será ocupada pela RK.

D: Você trabalhou com publicidade, turismo e se formou em direito. Como a moda entra nessa história? A loja de casimira dos seus pais te influenciou?
R.K:
Provavelmente sim. No passado, em 1870 mais ou menos, minha família tinha um entreposto de casimira em Manchester. Na década de 50, meu pai teve essa loja e eu fui praticamente criado dentro dela. Convivi com muitos tecidos e com esse ambiente de alfaiataria. Desde pequeno minhas roupas eram basicamente todas feitas pelos alfaiates… Meu primeiro terninho de calça comprida foi o máximo! E eu me conheci como adolescente sempre fazendo roupa sob medida.

D: E o que aconteceu com a loja?
R.K
: Meu pai acabou falecendo e ela se encerrou.

D: Mas você tem alguma formação em moda? Onde aprendeu a trabalhar o jeans?
R.K:
Foi tudo por intuição. O melhor curso que eu fiz foi ter me cercado de grandes profissionais de moda, que trocavam informações. Era a minha experiência, vontade e desejo com as experiências profissionais dessas equipes… Tanto na área de criação, quanto no marketing, na área de desenvolvimento, ou na parte de técnica têxtil. E isso me credenciou como um homem de moda. Hoje, mais do que nunca, minha idéia é estar literalmente focado na criação.

Reprodução

O jeans da RK Denim vem numa caixa, acompanhada da moeda da sorte de Renato

D: Como você vê o mercado de moda atualmente? Que conselhos daria a um jovem estilista?
R.K:
Diante de centenas, milhares de demissões nesses tempos de crise, a única saída para um jovem criador é se aperfeiçoar ao máximo para se tornar um talento. Pois assim como ele, tem centenas… Acho que tem que se especializar, se aprimorar por demais.

D: Soube que você é aficionado por lápis. Ainda tem a coleção?
R.K:
Tenho e gosto muito! Aliás, se você tiver um sobrando, pode me fornecer (risos). Devo ter hoje uns 6,3 a 6,7 mil lápis inteiros, fora os toquinhos, que devem chegar perto de 900 itens. Minha coleção de fato são toquinhos. Essa é a maior herança que eu vou deixar pros meus filhos.

D: Qual é o lápis mais querido?
R.K:
Ah, tem vários… Todos os usados têm muita história, escreveram vários relatos, desenharam várias coisas, pensaram várias coisas e serviram muito de talismã… Ou de apoio. É que tem pessoas que se apóiam, né? Eu, por xemplo, não vivo sem lápis. Aliás, minha terapia é apontá-los.

D: Quando você viaja, você compra lápis?
R.K:
Só faço isso!

D: O que te inspira hoje?
R.K:
Nesse momento, minha família. Trabalho por eles, faço por eles… Eu tenho cinco filhos. E eles me dão uma força de inspiração extraordinária e uma motivação sobremaneira.

17 fev

Mariana Maltoni
João Pimenta, o homem das silhuetas femininas

Aos 41 anos, João Pimenta sente que sua moda ainda precisa de amadurecimento. Integrante desde 2004 do line-up da Casa de Criadores, sendo um dos nomes mais fortes do evento, esse estilista nascido em São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais, procura consistência antes de sair de uma semana de moda que revela novos talentos, para um evento “mais comercial”, como ele mesmo define o São Paulo Fashion Week. Sem pressa e sem querer “atropelar as coisas”, ele quer experimentar. Busca uma nova linguagem para a moda masculina, utilizando referências femininas. Essa, inclusive, é a verdadeira essência da sua marca que propõe para o homem uma maior liberdade para se vestir. “A moda masculina é muito chata”, declara o estilista com a autoridade de quem no começo da carreira dedicava-se a criar vestidos de noivas no centro de São Paulo. Nessa entrevista concedida ao Descolex no ateliê dele, em Pinheiros, João conta sua trajetória, fala de sua entrada na Casa de Criadores, de seu sítio em Sorocaba e, é claro, de muita moda masculina. Confira!

Descolex: Quando você decidiu que queria trabalhar com moda?
João Pimenta:
Sempre quis, desde criança sempre fui apaixonado pelos tecidos desde os lençóis às cortinas. Minha família também trabalhava com costura, mas não acho que seja daí meu interesse por moda. Lá em Ribeirão Preto existe a Policia Mirim e, por meio dela, eu fui trabalhar bem jovem no parte de pacotes da Casas Pernambucanas. Eu adorava! E depois comecei a trabalhar com a vitrine, até que vim pra São Paulo.

D: O que você fazia antes de ser estilista? Poderia contar um pouquinho da sua trajetória?
J.P:
Já fiz de tudo; mecânico, office boy, vendedor de loja… Mas sempre quis ser estilista. Em 1985, aos 18 anos, vim morar em São Paulo. Quando cheguei na rua São Caetano, ali na Luz, achei que aquilo era o reino encantado. Fui trabalhando de loja em loja, fazendo vestido de noiva, madrinha, roupa de festa… Até que eu não agüentava mais e resolvi mudar. Em 95, descobri o Mercado Mundo Mix e comecei a fazer só mini-saia pra vender lá. Criava um 300 modelos diferentes e tinham uns mais conceituais, feito de carne, de gilete, de prego, de recortes de revistas pornográficas…

D: E as pessoas compravam essas saias?
J.P:
Olha, muito mais do que vender essas peças, aquilo era um exercício pessoal. A moda é um veículo de expressão muito forte e tentar fazer essa comunicação com as pessoas faz com que você comece a entrar em sintonia com elas. Eu não vendia, mas conseguia encaixar varias delas em editoriais… (risos).

D: E você abandou os vestidos de festa? Não faz mais feminino?
J.P:
Faço vestido muito raramente e são mais para as amigas, que acabo nem cobrando. Exatamente pra deixar claro que eu não vivo mais disso. Mas o feminino ainda é presente na minha coleção. É só dar uma olhada na loja aqui em baixo. Eu acho que criar para o feminino é até mais bacana.

D: Mas porque, então, você só desfila moda masculina?
J.P:
Eu sinto uma carência na área. Vejo aqui na loja os meninos provando as roupas femininas, procurando uma coisa diferente… Para as mulheres já se experimentou de tudo, enquanto que para o homem uma apequena alteração já se transforma no diferente. Acho que o que evouli agora é a moda masculina. Ela vai ficar cada vez mais próxima do feminino até que tudo vire uma coisa só, unisex.

Mariana Maltoni
O estilista em sua loja em Pinheiros

D: Mas você não acha que há uma barreira cultural, pelo menos aqui no Brasil, que impede essa evolução?
J.P:
Essa história de que somente a roupa fala por você, de que ela determina quem você é o que trava os homens brasileiros. Essa associação tá longe de ser real, mas realmente atrapalha os meninos.

D: Aliás, essa discusão dos elementos femininos no guarda-roupa masculino é o tema da sua última coleção, né?
J.P:
Sim. Eu criei uma silhueta onde os homens ganhavam culote, tinham a região dos quadris super destacadas. Era pra chutar o pau da barraca mesmo. A moda masculina é muito chata e eu quis causar esse desconforto. O homem tem silhueta, mas tudo que se faz pra ele é muito quadrado, sabe? Mostrei um homem seguro, que se apropia do feminino e se sente lire pra experimentar. E isso deu uma coisa sexy à coleção.

D: E porque a trilha de picadeiro? Porque os modelos entravam com os braços afastados dos quadris?
J.P:
No sub-texto de desfile, eu quis trazer essa coisa do palhaço, que nada mais é do que uma defesa. De certa forma, os meninos estavam travestidos, mas pro palhaço tudo pode, porque ele tem essa máscara. Já os braços arqueados era pra mostrar que esse homem duro tinha uma sensação de certo estranhamento com seus quadris enormes, era pra brincar com esse novo. Mas eu sei que os modelos bem que gostaram da proposta. Na fila pra entrar na passarela, eles ficavam ajeitando os quadris pra deixar com mais volume… Foi bem engraçado.

D: Você fez faculdade de moda?
J.P:
Não. Eu não tenho formação acadêmica. Quando cheguei a São Paulo eu menti no meu primeiro emprego dizendo que sabia desenhar. Lembro até hoje que minha primeira cliente era uma senhora do interior e eu tinha que fazer um vestido de festa, desenhando na frente dela. Fiquei em pânico! A sorte é que ela sabia muito bem o que queria e gostou muito do meu atendimento, mesmo sem desenho (risos). Gostou tanto que foi me elogiar pro gerente. Isso me fez ganhar uns pontos com ele e me sentir confortável pra dizer que não sabia desenhar. E ele foi muito bacana e começou a me ensinar tudo. É uma história engraçada, mas eu não recomendo.

D: Por quê?
J.P:
Porque eu demorei muito pra dar credibilidade ao meu trabalho. Acho que só fui acreditar que sabia fazer há pouquíssimo tempo. Isso sem contar que você perde muito tempo quando você não sabe a técnica.

D: E como pintou o convite de desfilar na Casa de Criadores? Como foi seu primeiro desfile?
J.P:
É aquela história conhecida. Há cinco anos comecei a fazer roupas para os amigos e a coisa foi fazendo sucesso. Até que um dia eu e o Rodrigo Marques juntamos uns modelos, pegamos umas peças e fizemos umas fotos. Eu mandei o material pro André Hidalgo, a gente ficou um tempo se falando até que um dia surgiu a oportunidade e ele me convidou. Achei que ia detonar no primeiro desfile, só que quem detonou comigo foi a crítica. Daí, eu comecei a ver que eu não era o máximo e fui trabalhando em cima dessas críticas para melhorar.

D: Então você aceita criticas numa boa…
J.P:
Eu acho a crítica fundamental. Ela me serve de termômetro para perceber o que está acontecendo, pra evoluir. Sinto que alguns estilistas mais conceituados atingiram um patamar onde eles não têm mais crítica e, por isso, não evoluem.

Mariana Maltoni
Para ele, SPFW só daqui um tempo

D: Pensa em ir para um SPFW, por exemplo?
J.P:
Sim, claro. É um sonho. Há um ano, eu queria isso muito rápido, mas comecei a perceber que meu trabalho é mais experimental. Meu processo tem outro timing. Não adianta ir para um evento mais comercial sem estar pronto. Sinto que a moda no Brasil vai ser muito grande e eu tenho vontade de fazer parte dessa história que ainda vai acontecer. Por isso, não tem porque ficar atropelando as coisas. Eu preciso de consistência, entrar em sintonia, sacar as linguagens. Além do mais, estou muito desanimado com patrocínio e apoio. A relação é sempre um horror, você sempre está preso…

D: Como as pessoas comuns influenciam seu trabalho? Qual é sua fonte de inspiração?
J.P:
Eu tento buscar inspirações nas coisas simples. E acho muito bacana quando as pessoas comuns, fora do universo de moda, absorvem minhas idéias. No começo achava difícil uma pessoa de um universo como o meu, da roça, da simplicidade, pudesse dizer o que vestir ou o que usar. Mas descobri que são exatamente os contrapontos – pobre e rico, bonito e feio, homem e mulher, chique e cafona – o meu forte. Aprendi a pegar todo essa pauperismo do meu passado e transformar. Moda tem que vir de dentro.

D: Você segue tendências em suas coleções?
J.P:
Tento. Mas acredito muito no inconsciente coletivo. É só prestar atenção nas ruas, nas necessidades das pessoas que vêm aqui na loja… Não adianta você querer ir contra certas tendências. É óbvio que o estilista tem a obrigação de desenvolver uma linguagem prórpria, mas isso não impede de ele seguir certos desejos que estão no ar.

D: O que te faz sentir mais vaidoso?
J.P:
Ver o resultado de um trabalho.

D: O diário de quem você gostaria de ler?
J.P:
De pessoas que estão por ai pela rua, os mendigos.

D: Quando e onde você fica mais feliz?
J.P:
Em meu sítio, em Sorocaba, cuidando dos animais. Sou super da roça, adoro mexer com terra. Tanto que vou pra lá quase todo fim de semana.

D: Então você não é um cara de balada…
J.P:
Nos últimos tempos, tenho ficado um tanto enclausurado, tipo, concentração. Pra mim é muito importante poder aproveitar o dia todo… Tenho muita coisa pra fazer e não dá pra perder o dia me recuperando de uma noitada. Prefiro me preservar. Além do mais, sinto que a noite é repetitiva. São sempre as mesmas coisas, as mesmas caras…

D: O que é chique hoje? Você concorda com os estilistas que falam que é possível usar tudo hoje em dia?
J.P:
Acho que hoje e sempre chique é ser autêntico. Ou seja, dá pra usar tudo, desde que isso não mude sua personalidade.

D: Que tipo de música você gosta? O que anda ouvindo no momento?
J.P:
Gosto de todo o tipo de musica, mas devido a trilha do meu último desfile, tenho procurado muito pelas músicas de picadeiro.

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