2 fev

Eba! Uma das “seções” mais comentadas do blog em 2009 tinha que voltar esse ano, né? Minha intenção pra 2010 é trazer conversas com diversos profissionais ligados direta e indiretamente com o mundo da moda. Não sei se é pretensão minha, mas acho legal mostrar que nesse universo dá pra se trabalhar com muita coisa sem ser estilista.

DivulgaçãoBeto-Guimaraes
Beto Guimarães

E quem abre os trabalhos é o consultor de marcas Beto Guimarães. Com mais de 15 anos no mercado de moda, Beto é responsável por várias campanhas e projetos de identidade visual para grifes como Maria Garcia, Huis Clos e André Lima. A Maria Garcia é sua parceria mais sólida – a marca tem cerca de 10 anos e quase todas as campanhas foram feitas por ele, com exceção talvez da primeira. Recentemente, ele também desenvolveu a primeira campanha da Simone Nunes, que apesar de já ser conhecida, nunca tinha investido em publicidade ou em um projeto de identidade visual. Nessa entrevista, ele explica como é esse trabalho de construir a imagem que expresse a essência de uma marca e comenta a quantas anda a publicidade e o marketing de moda feito no Brasil na opinião dele – “Se você pensar que moda tem a ver com o novo, com mudança, então nosso formato de atuação: desfile/campanha/evento-com-celebridade está desgastado”.

Descolex: O que faz um consultor de marca?
Beto Guimarães:
Existem vários tipos de consultores de marca que fazem trabalhos bem diferentes uns dos outros. O meu território é image branding: crio imagens que ajudam a expressar a identidade de cada marca, para estabelecer uma relação com seus públicos; imagens que são, além de um objeto estético, um instrumento de comunicação.

D.: Mas, o que é branding?
B.G.:
Ele surgiu no final dos anos 80 e virou febre nos anos 90, até se popularizar durante esta década. Branding é um dos alicerces do marketing e da estratégia de negócio, ele tem como fundamento os atributos tangíveis e intangíveis de uma marca, como benefícios emocionais e funcionais, por exemplo.

D.: Qual a chave para o sucesso de uma marca?
B.G.:
Foco e saber o que tem a dizer. Com tantas marcas, possibilidades e pouco tempo, o consumidor que não for impactado de primeira dificilmente dá uma segunda chance para uma marca. Se a marca tem clareza dos seus diferenciais e onde quer chegar, certamente dará menos voltas, perderá menos tempo e dinheiro.

DivulgaçãoSimone-Nunes-campanha
Campanha da grife Simone Nunes

D.: E como você vê a internet hoje no processo de construção de uma marca? Quais as possibilidades dessa mídia?
B.G.:
A internet é uma realidade que não dá para ignorar, ela se impôs como um território obrigatório, por outro lado, o espaço virtual está lotado, poluído e se você quiser achar alguma coisa que vale a pena, vai ter trabalho… Do que adianta ter Twitter, Facebook, conteúdo pra celular se a marca não sabe o que tem a dizer? Acho que o que é novo hoje é olhar para o espaço virtual e o real como um só, sem separações: coisas que começam no virtual e passam pro real e vice versa, criando troca de experiência entre os dois mundos, tornando-os complementares.

D.: Lá fora parece que as empresas já compreenderam melhor que o consumidor e o mercado mudaram. Tenho a sensação que as grifes gringas já trabalham melhor e de forma diferente suas marcas. Mas, aqui no Brasil, parece que o marketing voltado para a moda ainda não é bem-desenvolvido… O que você diria sobre isso?
B.G.:
Se você pensar que moda tem a ver com o novo, com mudança, então nosso formato de atuação: desfile/campanha/evento-com-celebridade está desgastado. A procura por novos formatos que envolvam o consumidor é um desafio constante, e a resposta ainda não está pronta. Acho que os desdobramentos, principalmente de uma campanha de moda, devem transcender as páginas das revistas para ir ao encontro dos consumidores.

D.: Quais marcas ganhariam nota 10 em branding, na sua opinião?
B.G.:
Fora as óbvias, as gringas que já viraram case, eu adoro o trabalho da Osklen, da Le Lis Blanc e da NK Store; acho que cada uma, do seu jeito, faz o consumidor sentir a essência delas.

D.: Como definir a imagem que será passada ao consumidor?
B.G.:
É necessário saber como a marca é percebida, como ela quer ser percebida e analisar o gap entre as duas realidades, levar em conta seu estilo, seus diferenciais, seus concorrentes e seus objetivos estratégicos de negócios. É um trabalho primeiro analítico e depois criativo, que eu chamo de estratégia criativa.

DivulgaçãoCorello-Maria-Garcia-campanha
Campanhas da Corello e Maria Garcia

D.: Há quem diga que ainda copiamos editoriais ou campanhas de moda do exterior. Qual a sua opinião sobre isso?
B.G.:
Tenho a mesma sensação… E nem entendo direito por que fazer isso, se a parte legal e divertida do nosso trabalho está justamente na criação de uma imagem. Se uma imagem já está pronta, qual é a graça de repeti-la?

D.: O que te levou a trabalhar com moda e com consultoria de marcas?
B.G.:
Eu passei por tantos lugares diferentes fazendo coisas diferentes, sempre com moda. Fui vendedor de loja, produtor de revista, de desfile, gerente de marketing, vitrinista, diretor de arte… Eu conheci a moda por vários ângulos. Até que fui contratado como gerente de brand creation na FutureBrand, empresa que é líder mundial em consultoria de marcas. Ao sair de lá, voltei para a moda repaginado, com um novo olhar, com um novo processo de criação.

D.: O que estudou?
B.G.:
Estudei artes plásticas e publicidade. Além disso, fiz cursos variados, desde direção de arte para cinema até marketing emocional, passando por História da Arte com Rodrigo Naves, Arte Contemporânea com Agnaldo Farias, e Design, Estilo e Decoração no século XX com João Pedrosa etc.

D.: Quem foram seus mestres?
B.G.:
Eu sempre fui interessado por imagem: de revista, cinema, videoclipe, fotografia, capas de CDs, mas quem interferiu de um jeito definitivo no meu jeito de perceber imagem foi a Clô Orozco, da Huis Clos. Foi ela quem deu meu primeiro trabalho importante em São Paulo.

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Campanhas da Paula Ferber e Le Postiche

D.: Dá para ganhar dinheiro sendo um consultor de marcas no Brasil?
B.G.:
Dá, até porque, como eu já falei, existem muitas possibilidades de formato em consultoria de marcas, e muitas dessas marcas ainda trilham caminhos repetidos, ou sem um direcionamento planejado.

D.: O que você diria pra quem quer seguir carreira semelhante à sua?
B.G.:
Ser curioso, olhar ao redor, ter interesse por assuntos diversos, como música, cinema, artes em geral, sair pra dançar, olhar as pessoas na rua, viajar sempre que puder, ir a museus, comprar livros, conhecer gente, viver uma história de amor, se jogar… Porque para fazer esse trampo é preciso ter repertório, e pra ter repertório, só vivendo!

D.: O que é preciso para ser reconhecido?
B.G.:
Coerência, ética, talento, contatos e um bocado de sorte.

D.: O que te inspira hoje?
B.G.:
Meus amigos, minha casa, ler, ouvir música, viajar, a Helena Sasseron, que trabalha comigo, filmes, o ócio (quando consigo) e a rua (eu não sei dirigir, por isso ando muito a pé, a pé o mundo tem outro ponto de vista).

D.: Quais são suas fontes de informação? Você costuma ler blogs?
B.G.:
Folha, Wad, Tokion, Vogue Itália, Elle Decor, Mag, eu adoro também a Kids Wear, Self Service e a Fantastic Man, os sites johnconnellypresents.com, vvork.com, saatchigallery.co.uk, bantjes.com, springwise.com, trendwatching.com, droog.com, facehunter.com, rgvogue.com.br, dailycandy.com, influxinsight.com, psfk.com, iconoculture.com, marketingprofs.com, flavorpill.com, pigmag.com, buildingbrands.com e os blogs Opequi, hypercool, The Sartorialist e vários outros de moda de rua.

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Campanhas das grifes infantis Green e You

D.: Que benefícios uma marca pode ter ao contratar um consultor?
B.G.:
Definir seu espaço, traduzir sua identidade em imagens e, com isso, ser melhor percebida ou compreendida.

D.: Recentemente, o WGSN fez uma seleção das melhores campanhas publicitárias de moda da América Latina para o verão 2010, e duas campanhas assinadas por você estão na lista – coincidentemente, de duas marcas infantis, Green e You. Desenvolver uma campanha para uma grife infantil é diferente de desenvolver uma campanha para uma grife adulta?
B.G.:
Nos dois casos se está falando com um adulto, já que quem compra roupa pra criança é sempre um adulto. A particularidade está não no fato de ser marca para uma criança ou para um adulto, mas sim no fato de que cada marca – independente da faixa etária consumidora – determina um processo próprio de criação: o da Green é totalmente diferente do da You, os objetivos e formatos não são os mesmos. O contato com esses universos tão diferentes traz surpresas diárias ao meu trabalho, provoca sempre emoção. Pode parecer um pouco romântico, emocional até, mas eu sou meio assim, daí o nome da minha agência ser Carme, que é sinônimo de verso, poesia. Isso já diz tudo.


8 comentários »

Posso falar? AMEI, Glauco. Acredito que tenha sido uma das entrevistas mais interessantes que já li aqui, parabéns!

Talvez eu tenha me identificado tanto por estudar Relações Públicas e por sonhar em relacionar moda e comunicação, assim como faz o Beto Guimarães. Tá aí alguém pra se inspirar!

Um abraço,

fevereiro 2nd, 2010 às 10:08 am | Comentário #7026

Poucas vezes fiquei tão feliz de ler uma entrevista! Tudo que me levou a estudar publicidade e propaganda é ter um trabalho exatamente como o do Beto Guimarães, não conhecia o trabalho dele e sempre achei que teria q sair do país se quisesse realmente fazer a diferença trabalhando com isso, acho q é um mercado que tem tudo pra crescer logo agora que o nosso país em si está virando uma marca e das fortes. Estudo todo dia um pouco sobre esse mercado já faz um tempo e gostaria muuuito de saber mais sobre isso aqui no blog, acha mais gente pra entrevistar dessa area por favor!! Esse mercado é super difícil pra quem qr começar, aliás não sei nem por onde ainda mas continuo procurando!! Ótima entrevista!!!

fevereiro 2nd, 2010 às 3:34 pm | Comentário #7029
adelaide:

não conhecia o descolex! adorei, mais uma boa fonte de informação.
quanto ao beto, entrevistado da vez,já admirava o trabalho dele há muito tempo. toque de midas.cabeça fervilhando de coisas bacanas o tempo todo, um visionário que empresta seu talento à moda.guerreiro dos bons!
sorte pra vcs e parabéns!

fevereiro 2nd, 2010 às 5:04 pm | Comentário #7032

Adoreiiii essa matéria Glauco, e já estou esperando as próximas. Também sempre bato nessa tecla que quem faz moda insiste em ser estilista sendo que tem várias áreas ainda não exploradas. Mas espero que isso mude, eu só tive aulas voltadas para estilismo e agora estou correndo atrás porque não é isso que quero. Parabéns!

fevereiro 2nd, 2010 às 5:05 pm | Comentário #7033

o blog esta super legal.. aadorei a entrevista.. clap..*

fevereiro 7th, 2010 às 5:15 pm | Comentário #7064

adorei a entrevista. sempre quis saber um pouco mais sobe branding, acho um lado interessante da moda…é maravilhoso poder colocar em imagem o trabalho de um designer e toda a sua equipe.e eu adro as campanhas da maria garcia!

fevereiro 7th, 2010 às 5:39 pm | Comentário #7065

Muito bacana a entrevista. Ficou objetiva e consistente. Parabéns.

fevereiro 7th, 2010 às 11:17 pm | Comentário #7067

NOSSA EU ESTUDO PUBLICIDADE E PROPAGANDA, E JA FAÇO ALGUMAS PRODUÇÕES NA AREA DE MODA, GOSTARIA MUITO DE TRABALHAR NESSA AREA DE MARKETING DE MODA, E VEJO ESSAS ENTREVISTAS COMO ALGO SUPER INTERESSANTE POR QUE PROFISSIONAIS DA ARÉA EXEMPLIFICAM O QUE É REALMENTE ESTAR NUMA ARÉA DISTINTA, ISSO ME ANIMA MUITO, OTIMO SABER QUE HÁ ESPAÇO NO MERCADO BASTA SOMENTE ESTAR PREPARADO…

fevereiro 8th, 2010 às 12:08 am | Comentário #7068
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