Mariana Maltoni
Renato Kherlakian
Como se fosse uma novela que mistura tragédia e pastelão, a vida de Renato Kherlakian, 59, deu nos últimos anos uma reviravolta. Criador da Zoomp e pioneiro do jeanswear no Brasil, o estilista assiste sua grife, criada em 1974, ruir nas mãos do grupo I’M (Identidade Moda). Pertencente à holding HLDC, dos empresários Enzo Monzani e Conrado Will, a I’M pretendia ser o maior grupo de moda nacional e já no final de 2007 reunia sob seu guarda-chuva as marcas Alexandre Herchcovitch e Fause Haten. Não demorou muito para que o ambicioso plano se revelasse um dos grandes engodos da curta história da moda brasileira. Em março de 2008, Herchcovitch e Fause Haten deixaram o grupo. Já em fevereiro deste ano, o mais recente capítulo deste folhetim: a Zoomp teve sua falência decretada para alguns dias depois ter a ordem suspensa via liminar judicial. Com o fim do seu contrato de prestação de serviços e de não-concorrência com a grife, Kherlakian agora quer dar a volta por cima. Enquanto acompanha atenciosamente a moribunda Zoomp se debatendo entre dividas trabalhistas e processos judiciais, o estilista tenta se reerguer com a criação de uma grife de jeans premium feminino, a RK Denin. Eu fui ao novo showroom do estilista, nos Jardins, para conferir as roupas e conversar com Kherlakian. Nesta entrevista, ele fala de seus novos planos, da fase em que se encontra o mercado de jeanswear nacional com a entrada de grifes estrangeiras e até de sua grande paixão: a gigante coleção de lápis.
Descolex: Depois de 39 anos de mercado e de tudo o que você passou com a Zoomp nos últimos tempos, você não cansa? O que te dá essa energia para lançar uma nova grife e recomeçar do zero?
Renato Kherlakian: Eu construí um império com a marca Zoomp absolutamente do nada. Não digo de moda, mas de um jeanswear, de um casual. Provavelmente seja nato, esteja na minha corrente sanguínea, mas na verdade eu fiz muito nesses anos todos. Meu desejo era ter sido um diretor de cinema pra poder comandar, dirigir, criar cenários e tudo mais. Acabei me formando em direito. Mas, a minha atuação na moda e na confecção atendeu completamente o meu desejo. A própria direção criativa da Zoomp, tanto nas vitrines, como nos desfiles, nas coleções, nos show-rooms e no desenvolvimento de cada uma das peças absorveram esse meu sonho. E hoje, mais do que nunca, em prol dessa volta ao mercado, eu talvez tenha a vontade renovada. Porém, com uma visão muito clara e nova do cenário pra próxima década.
D: Como foi receber a notícia do decreto de falência da Zoomp?
R.K: A minha reação é uma coisa tão pessoal, que eu prefiro evitar comentar. Sem palavras.
D: Deve ser difícil…
R.K: Sem palavras.
D: Que lição você tira com toda a história de sucesso e declínio da Zoomp para esta nova marca?
R.K: Como resultado, as experiências passadas são absolutamente catastróficas. Mas, eu tenho comigo uma expressão que eu não consigo alterar: “qualidade, qualidade, qualidade”. E essa qualidade não está somente no seu espaço, no tapete de seu show-room ou na iluminação dele. É a qualidade embutida em todos os setores que possam estar ligados ao desenvolvimento de um jeans. Tanto no requinte de desenho, no acabamento, na forração dos bolsos, nos aviamentos, como também na própria distribuição para a clientela e, principalmente, na vestibilidade das peças. Meu conceito extremo hoje é fazer com que todas as bundas fiquem absolutamente elevadas.
D: Em quantos pontos de venda você vai trabalhar a RK Denim? Em que regiões do país?
R.K: O objetivo são 200 pontos de vendas em todo o Brasil. Alguns já estão fechados, muitos contatados e outros ainda a serem conquistados no decorrer do semestre ou dos próximos lançamentos. Eu farei quatro lançamentos por ano. Nesse primeiro, nós já tivemos um objetivo alcançado extraordinário.
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Renato apresenta seu novo jeans a compradora
D: Pensa em fazer uma linha masculina? Pra quando?
R.K: Há um business plan para três anos. Ele envolve uma série de estudos, projetos e possibilidades. Ao voltar pro mercado, eu vou sondar mais e melhor o que será perfeitamente possível, e pra onde vai e pra onde não vai a RK.
D: Como é essa primeira coleção? Quais as referências e inspirações?
R.K: O jeans da RK é conseqüência de uma avaliação da mulher de hoje, quais são seus desejos e ambições. Independentemente das academias, drenagens e cirurgias plásticas, fui procurar saber o que exatamente ela tem em mente como valorização do seu corpo, de sua estética. Pra mim, a mulher brasileira tem uma nova proporção, uma nova silhueta. E ela também tem novos hábitos, novos costumes e, mais do que nunca, ela está muito alinhada com o que acontece no mundo. Ela já tem uma noção muito clara do que é bacana, do que é descolado. Por isso, a RK é criada com uma série enorme de informações, um jeans muito mais chique, muito mais elegante… Fugindo do que hoje é o grande mercado nacional. Atualmente, há uma presença muito forte dos jeans gringos como conceito e os jeans nacionais indo pra uma massificação enorme. Isso vem ocorrendo com marcas que eram concorrentes minhas, além da própia Zoomp, que seguem pra um segmento mais popular, mais barato, despido de qualidade. Você tem que ver meu jeans do avesso pra depois concebê-lo no direito. São peças feitas numa linha de produção absolutamente de alfaiataria. Sem me preocupar efetivamente com detalhes que possam baratear custos.
D: Parece que os estilistas descobriram só agora, com esse boom dos jeans premium, que uma calça pode ter muito exercício de modelagem. Como rola essa história com você? Como é o trabalho de desenvolvimento de uma calça jeans da RK?
R.K: Eu tenho uma grande vantagem porque faço as provas de roupa em casa. Toda anatomia, a base da minha prova é minha esposa. E essa análise constante faz com que haja uma adaptação muito fácil da modelagem que eu estou desenvolvendo. Além disso, hoje em dia, a própria evolução da tecnologia está a serviço da criação. Equipamentos permitem que eu tenha facilmente o modelo em 3D, podendo, assim, aplicar novas medidas e proporções no corpo dessa mulher. É uma ciência enorme! Você coloca um japonês louco do seu lado e ele faz o que você estiver a fim. Mas isso também só é possível graças à Cosmak, que está fazendo toda a produção do meu jeans, colocando à minha disposição todo equipamento que eu tiver necessidade.
D: Quais lavagens você trabalha nessa primeira coleção? Alguma novidade?
R.K: Aí eu tô no tempo antigo (risos). Todo meu trabalho com beneficiamento do jeans é tomado como base o início dos anos 70, quando o índigo bruto ganhava banhos de imersão de pelo menos 30 horas para fazer uma quebra da fibra e manter a coloração dele. Ou seja, todos o jeans da RK têm como principio a imersão e depois a realização dos acabamentos necessários. E os desgastes são feitos manualmente e não com toda a ciência atual de produção de larga escala.
D: Você quer dizer que os jeans são desgastados um a um?
R.K: Um a um. Se você pega um jeans tradicional novo, nota-se que os desbotes na bunda deformam a proporção. No meu jeans, o desgaste é como se fosse com o tempo de uso, andando de moto ou de bicicleta… É só no selim, só no traseiro, muito localizado, quase imperceptível. E isso só é conseguido com o trabalho artesanal. O hecho a mano pra mim é muito importante.
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Renato e o jeans de sua RK Denim
D: Quando começam as vendas pro varejo? Qual faixa de preço?
R.K: A marca chegou às lojas na segunda quinzena de março, numa faixa de preço que vai de R$ 450 a R$ 750.
D: Vi que todas as calças estão um pouco afastadas do corpo… Qual é a silhueta que você está trabalhando? Está fazendo skinny, por exemplo?
R.K: Essa daqui é uma skinny. Tenho também as pernas retas, a skinny cigarret, as bocas de sino, pantalonas… Na verdade são quatro linhas: jeanswear, jeanswear alfaiataria – linha de produção de alfaiataria com matéria-prima denim – , a alfaiataria demi couture – é quase que uma alta costura, mas com tecidos menos nobres – e as pantalonas.
D: Qual é o objetivo da “moeda-tag”, seu novo símbolo?
R.K: A idéia é dar um novo peso, um novo valor ao denim nacional, visto que as (marcas) gringas estão invadindo o mercado. E isso coincide muito com essa depressão que está se vivendo na economia mundial. A moeda só não presta para o cofrinho das mulheres, muito pelo contrário, já que a vestibilidade não permite (risos).
D: Aliás, você está indo na contramão dessa crise, lançando uma marca nova…
R.K: É preciso ter paciência em relação à crise. A partir do momento que eu tenho a oportunidade de apresentar meu trabalho, a convicção do comprador na marca é de pronto manifestada. Apesar de estar na contramão do mercado, existe um vazio nele. E essa brecha será ocupada pela RK.
D: Você trabalhou com publicidade, turismo e se formou em direito. Como a moda entra nessa história? A loja de casimira dos seus pais te influenciou?
R.K: Provavelmente sim. No passado, em 1870 mais ou menos, minha família tinha um entreposto de casimira em Manchester. Na década de 50, meu pai teve essa loja e eu fui praticamente criado dentro dela. Convivi com muitos tecidos e com esse ambiente de alfaiataria. Desde pequeno minhas roupas eram basicamente todas feitas pelos alfaiates… Meu primeiro terninho de calça comprida foi o máximo! E eu me conheci como adolescente sempre fazendo roupa sob medida.
D: E o que aconteceu com a loja?
R.K: Meu pai acabou falecendo e ela se encerrou.
D: Mas você tem alguma formação em moda? Onde aprendeu a trabalhar o jeans?
R.K: Foi tudo por intuição. O melhor curso que eu fiz foi ter me cercado de grandes profissionais de moda, que trocavam informações. Era a minha experiência, vontade e desejo com as experiências profissionais dessas equipes… Tanto na área de criação, quanto no marketing, na área de desenvolvimento, ou na parte de técnica têxtil. E isso me credenciou como um homem de moda. Hoje, mais do que nunca, minha idéia é estar literalmente focado na criação.
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O jeans da RK Denim vem numa caixa, acompanhada da moeda da sorte de Renato
D: Como você vê o mercado de moda atualmente? Que conselhos daria a um jovem estilista?
R.K: Diante de centenas, milhares de demissões nesses tempos de crise, a única saída para um jovem criador é se aperfeiçoar ao máximo para se tornar um talento. Pois assim como ele, tem centenas… Acho que tem que se especializar, se aprimorar por demais.
D: Soube que você é aficionado por lápis. Ainda tem a coleção?
R.K: Tenho e gosto muito! Aliás, se você tiver um sobrando, pode me fornecer (risos). Devo ter hoje uns 6,3 a 6,7 mil lápis inteiros, fora os toquinhos, que devem chegar perto de 900 itens. Minha coleção de fato são toquinhos. Essa é a maior herança que eu vou deixar pros meus filhos.
D: Qual é o lápis mais querido?
R.K: Ah, tem vários… Todos os usados têm muita história, escreveram vários relatos, desenharam várias coisas, pensaram várias coisas e serviram muito de talismã… Ou de apoio. É que tem pessoas que se apóiam, né? Eu, por xemplo, não vivo sem lápis. Aliás, minha terapia é apontá-los.
D: Quando você viaja, você compra lápis?
R.K: Só faço isso!
D: O que te inspira hoje?
R.K: Nesse momento, minha família. Trabalho por eles, faço por eles… Eu tenho cinco filhos. E eles me dão uma força de inspiração extraordinária e uma motivação sobremaneira.


Cara, isso é que é história! Muito bom! Tenho certeza que a RK Denin prosperá muito e fará história, o Renato manda bem.
Glauco, arrasou na entrevista!!! Ficou ótima! Parabéns!
“Eu construí um império”, hahahaha! Adoro pessoas humildes!
Muito bem feita a entrevista, aproveitou cada gota do Kherlakian. Adorei!
que entrevista excelente Glauquinho, parabéns!!!!
Ótima entevista!!! Parabéns!!!
Trabalhei com ele 3 anos , e sei que é verdade quando ele disse “Eu construí um império”, isso não é ser arrogante, é saber de onde veio, onde esteve e agora onde está e se levantar.
Sucesso a RK !!!
Esse foi meu Patrão, fui sua piloteira a 15 anos igual a ele acho que não existe.
Tratavas seus funcionario todos iguais desde os faxineiros, se preocupava muito com nós.
É lamentavél o que aconteceu com a Zoomp mas tenho serteza o senhor Renato é guerreiro ele vai dar volta por cima logo vamos ver suas novas coleções nas passarela.
Boa sorte Sr: Renato
Sem duvida alguma será um sucesso, conheço o Renato e tudo que ele faz é com muito amor alem de ser uma pessoa humilde para tratar as pessoas.
Parabens Renato (mestre)
Cara…., só li essa entrevista agora, parabéns mesmo eu estudei no Arqui, com esse cara!!!!!!!
Eu adoro o Renato como pessoa e tenho muito respeito e muita admiração como empresario.Essa nova geração são todos cria dele e por isso o sucesso ele já tem ,agora é só questão de tempo….. Quem é rei nunca perde a magestade!!!!!!!!