Arquivo de agosto 2008
29 de Agosto | 2008
Descolex entrevista: Alcino Leite Neto


[Antes de começar, queria contar que essa matéria foi originalmente publicada na revista Catarina, edição 18, que saiu recentemente nas bancas. Como qualquer veículo impresso, há o velho problema de espaço. Por isso, não consegui publicar todas as perguntas feitas. Mas, aqui no Descolex, vocês conferem o bate-papo na íntegra. Aproveitem!]

Alcino Leite Neto (foto: Leandro Bugni)
Um dos mais importantes editores de moda do país trabalha na área há menos de três anos. Ao contrário de muitos jornalistas que contabilizam décadas dentro da moda, Alcino Leite Neto, 51, assistiu ao seu primeiro desfile somente em 2005, durante o extinto projeto Amni Hot Spot. Editor da coluna “Última Moda” e da revista “Moda”, ambas do jornal Folha de S.Paulo, Alcino assumiu o lugar de Erika Palomino após uma longa carreira como editor da Ilustrada, do Mais!, de cadernos especiais e das edições de domingo do jornal. “Passei uma semana refletindo se deveria ou não aceitar (o convite). Pensava que uma pessoa mais jovem seria mais apropriada ao cargo. Mas, como a Folha queria mudar o rumo da cobertura de moda, tornando-a mais jornalística, achei que poderia ter trazer alguma contribuição”, revela. Nessa entrevista, ele conta um pouco sobre seu começo na moda e mostra porque é hoje considerado detentor de uma das visões mais críticas e inteligentes do meio.
Descolex: Como muitos sabem, você foi despertado para a moda… Foi editor de diversos cadernos até assumir a editoria de moda na “Folha” no lugar da Erika. Qual foi sua primeira reação com o convite?
Alcino Leite: Fiquei muito honrado com o convite, ainda mais que deveria suceder minha amiga Érika Palomino, que tinha feito um ótimo trabalho na “Folha”. Passei uma semana refletindo se deveria ou não aceitar. Pensava que uma pessoa mais jovem seria mais apropriada ao cargo. Mas, como a “Folha” queria mudar o rumo da cobertura de moda, tornando-a mais jornalística, achei que poderia trazer alguma contribuição. Foi um desafio que resolvi encarar.
D: Moda não era um assunto que você dominava, certo? E como fez para se preparar para assumir essa editoria?
A.L: Sempre acompanhei a moda, teoricamente falando. Raramente deixava de ler as colunas e reportagens da Érika Palomino. Durante os desfiles europeus, gostava de ler alguma coisa da Suzy Menkes, apenas para me manter atualizado, como jornalista de cultura. Quando fui correspondente da Folha em Paris, segui com muita atenção as movimentações das grifes francesas em seus negócios. Mas eu realmente tinha pouca convivência com a moda e não havia parado para refletir no assunto com firmeza. Ao ser chamado para ser editor, tirei um mês de licença, quando aproveitei para ler vários livros e revistas, fazer visitas a fábricas e lojas, conversar com vários profissionais. Mas me considero ainda em período de aprendizado. Saí do pré-primário e entrei no primeiro grau!
D: Qual foi o primeiro desfile que você cobriu? Como foi a experiência?
A.L: Foram os do Amni Hot Spot, ainda bem! Estava muito tenso, mas fui tão bem recebido por todos, que logo me senti em casa.
D: Ser editor de moda em um jornal que fala com um público bastante heterogêneo é diferente de trabalhar como editor em uma revista?
A.L: Num jornal como a Folha, que tem uma tiragem média de 350 mil exemplares, é preciso escrever para um público amplo, que inclui de adolescentes a pessoas idosas, de fashionistas a médicos, de figuras do “underground” a empresários. Você tem que escrever com clareza, acentuando a importância de sua reportagem e buscando familiarizar as pessoas com o mundo da moda, que para muita gente é um lugar distante e estranho.
D: Como você vê a imprensa de moda no Brasil hoje?
A.L: Me parece um setor incipiente do jornalismo brasileiro. Precisa ter editores e jornalistas mais independentes. Há uma confusão muito grande entre jornalismo e publicidade. O marketing e os anunciantes parecem se imiscuir em demasia no trabalho dos jornalistas de moda, e estes aceitam as interferências sem se importar muito. A gente não sabe se alguém está elogiando uma grife porque esta fez um bom trabalho ou porque ela é anunciante do veículo ou mesmo se o jornalista tem vínculos profissionais com a marca. As opiniões parecem cartas marcadas. Por outro lado, o meio da moda está acostumado à bajulação, e as pessoas levam tudo para o lado pessoal. Há uma personalização extremada de tudo. Se você critica uma grife, o estilista ou o empresário acha que você não gosta dele, da mulher dele, do filho dele… Alguns são capazes de inventar histórias estapafúrdias para justificar a sua crítica, menos reconhecer que, você, realmente, tem objeções legítimas à coleção que ele apresentou. É preciso quebrar um pouco com este subjetivismo e fazer valer a objetividade do jornalismo e da crítica. Em termos gerais, estamos precisando de jornalistas novos e ousados, que façam seu trabalho com altivez e independência. Eles vão incomodar muito, mas também vão ajudar a amadurecer a moda brasileira.
D: As revistas de moda são muito acusadas de não abrirem espaço para novos designers. Você concorda?
A.L: Acho que abrem o suficiente. Não adianta ser novo apenas. Em moda, é preciso ter um negócio. A imprensa não pode ficar lançando novos nomes diariamente, sem que estes “novos” tenham estrutura comercial para atender as demandas que a difusão jornalística suscita. Há também, na moda, uma síndrome do novo a qualquer custo, que, às vezes, sobretudo no caso brasileiro, onde tudo é relativamente novo, acaba tendo um efeito desastroso. É o que também gera grifes sem personalidade, sem confiança na sua tradição, que acabam sacrificando toda a sua (pequena) história em nome do “novo” e do “contemporâneo”.
D: Em diversas entrevistas que faço já ouvi comentários do tipo “É triste abrir um editorial de moda e ver que ele é uma cópia da Vogue América de dois meses atrás”. Qual a sua opinião sobre isso?
A.L: Acho que isso faz parte da cultura periférica de moda que temos. Mas também penso que o problema é maior… Você também vê hoje editoriais de revistas importantes da Europa e dos EUA que são “reciclados” de editoriais notáveis que foram feitos no passado, às vezes pelas mesmas revistas. Na moda, o hábito da repetição, da reciclagem e da cópia é muito forte e é universal.

Capas das duas últimas revistas “Moda”, editadas por Alcino para a Folha de S.Paulo
D: Em toda a cobertura da temporada, a “Folha” trouxe um ranking das modelos negras nas passarelas. A moda é racista?
A.L: Creio que sim, da mesma forma como ela discrimina os feios, os velhos e os não magros. Mas existe um outro motivo para o racismo da moda: os negros costumam não estar entre os consumidores. Portanto, o sistema age também de maneira discriminatória por conta de seus interesses comerciais. Uma vez que os negros passem a ser contados entre os consumidores, certamente isso tudo mudará.
D: Depois do caso da morte da modelo por anorexia, você acha que essa história da “ditadura da magreza” diminui ou continua presente? Na última edição do “Moda” você criticou aqueles que falaram mal das curvas da Karolina Kurkova…
A.L: Continua. Pessoalmente, acho retrógrado e boçal ficar propagando um ideal de beleza que visa a magreza ilimitada, a juventude a qualquer preço e o apagamento total das imperfeições
D: O que te inspira?
A.L: Uma notícia boa e exclusiva.
D: Onde você se formou? Que curso fez?
A.L: Sou formado em jornalismo pela PUC-MG e sou mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com tese sobre o diretor italiano Roberto Rossellini.
D: O que uma pessoa tem que fazer para chegar a editor dentro de um grande jornal como a Folha? Qual foi o seu caminho?
A.L: Olha, meu caminho foi o mais banal possível. Eu morava em Belo Horizonte e li na “Folha” que o jornal estava recebendo currículos para o cargo de redator da “Ilustrada”. Mandei, fui chamado para a entrevista e acabei contratado. Até hoje, o jornal tem essa prática notável e muito democrática, de anunciar publicamente suas vagas de trabalho. E a “Folha” também é muito atenta àqueles que se destacam em suas funções e demonstram uma efetiva paixão pelo trabalho jornalístico.
D: Quais são suas fontes de informação?
A.L: Tudo. Jornais, livros, revistas, sites, blogs… Mas sobretudo conversas, muitas conversas. Acho que nada, nem mesmo o Messenger nem os emails, substituem uma boa conversa ao vivo ou por telefone.
D: Você acompanha os blogs de moda? Tem algum que gosta de ler?
A.L: Leio sempre que posso. Alguns são muito interessantes, com informações jornalísticas frescas, críticas fortes ou invenções formais curiosas. O blog que leio com mais freqüência não é de moda, mas de um talentoso crítico cultural francês, Serge Kaganski, no site da revista “Les Inrockuptibles“. De moda mesmo, no Brasil, gosto dos blogs da Maria Prata, da Camila Yahn, do Ricardo Oliveros, do Vitor Angelo, das meninas da Oficina de Estilo, do Sylvain Justum, do Lula Rodrigues, do Mario Mendes, da Olivia Hanssen e das garotas do It Girls, entre outros.
D: Na sua opinião, a moda brasileira segue hoje caminhos de criação próprios ou é uma repescagem de criações vistas nas coleções de temporadas internacionais?
A.L: Acho que os estilistas mais talentosos do país estão inteiramente dedicados a trilhar um caminho próprio e original. Agora, no Brasil, como em toda parte, existem também os diluidores, os imitadores e os copiadores.
D: Nas semanas de moda do Rio e São Paulo vemos muita repetição de fórmulas e pouca criação. Por isso, há quem defenda a unificação dos dois eventos e, conseqüentemente, a eliminação de marcas que apenas desfilam “coleção de show-room”. O que você acha disso?
A.L: Acho uma discussão inútil, uma perda de tempo. São Paulo congrega a maioria de grifes importantes e criativas. Mas não são as únicas. Também no Rio há grifes relevantes, ainda que em menor número. Devem existir outras grifes significativas, pequenas e pouco conhecidas, no Nordeste, no Sul, no Norte… Uma semana de moda não é um festival de melhores estilistas do país, mas um evento comercial que visa a apresentar para a imprensa especializada, para o comércio e, portanto, para os consumidores as coleções de cada marca e a imagem da grife para a temporada. Que algumas grifes estejam em São Paulo, no Rio ou em outra parte, isso tem a ver com a estratégia de mercado e de marketing de cada uma delas. Por que você acha que a Lacoste, grife francesa, não desfila em Paris, mas em Nova York? Porque em Paris ela seria apagada por grifes muito mais fortes do ponto de vista criativo ou da história da moda. E, no entanto, ela é uma das mais poderosas marcas francesas. Para a Lacoste, Nova York funciona bastante bem como vitrine midiática e comercial para o mundo. Por outro lado, por que as mais criativas grifes italianas, como a Prada, preferem desfilar em Milão do que irem para Paris, onde estariam ao lado de seus pares vanguardistas? Porque a Prada está interessada em fortalecer a indústria e o mercado fashion italiano. Ir para Paris seria uma deserção nacional. Não podendo ir com a marca principal, no entanto, a Prada mandou a sua marca secundária, a MiuMiu, para Paris, por estratégia mercantil. E por que a semana de Paris aceitou a MiuMiu, que é muito mais convencional que a Prada? Porque a semana de Paris não é feita apenas de grifes de vanguarda e altamente criativas, mas de outras também, que têm grande expressão comercial. Enfim, o sistema da moda é complicadíssimo. Ele não é feito à imagem e semelhança do gosto da crítica, mas atende sobretudo a complexas questões econômicas, sociais e até geopolíticas.
D: Em uma revista Moda, da Folha, você trouxe a seguinte declaração em editorial: “abaixem os preços, democratizem a cultura de moda e parem, então, de reclamar que os brasileiros se vestem tão mal!”. Você poderia desenvolver mais esse assunto? O brasileiro se veste mal? O que precisamos para democratizar a cultura de moda?
A.L: Com freqüência, no meio da moda, ouço alguém falar que “os brasileiros se vestem mal”. Mas o que é “o brasileiro”? É uma generalização. Como falar “do brasileiro” se há tantas diferenças socioculturais e econômicas no país? O que quis chamar a atenção neste artigo é para a questão social e econômica. As grifes internacionais têm o mercado global para venderem seus produtos. Mas as grifes nacionais só têm, em geral, o mercado brasileiro, que, aliás, é potencialmente enorme. No Brasil, onde a maioria da população pertence às classes B e C, para não falar da D, você não terá um desenvolvimento industrial das grifes que fazem roupas com design (o “fashion”) se não houver uma democratização dos preços acompanhada de uma difusão do gosto pela moda. É uma opção de cada grife: tornar-se apenas uma fabriqueta, quando não um simples ateliê, dirigido para uma pequena elite; ou tornar-se uma grande indústria, que vende e difunde moda para um largo público. Agora, é preciso entender também que o brasileiro não se veste como o europeu. Se tomamos como parâmetro de gosto o estilo europeu (seja ele londrino, parisiense ou milanês…), nunca vamos entender o que faz o “estilo” do brasileiro. Este tem a ver com inúmeros componentes sociais e históricos próprios do país. Por exemplo, a herança da nudez indígena em nosso comportamento, ou a influência determinante dos trajes das escravas… Ninguém vai fazer “o brasileiro” se vestir melhor mudando esta cultura, que, por sinal, nos enriquece tanto, num mundo onde as pessoas tendem a adotar um estilo cada vez mais “global” e “internacional”. O interessante é associar o novo gosto global com o charme de nossa história particular.
D: Nessa temporada, alguns estilistas optaram por subverter a exibição tradicional de suas coleções, fazendo performances (caso de Rita Wainer e Lorenzo Merlino, por exemplo). Como você vê isso? Acha que o desfile é um modelo desgastado?
A.L: Certamente, os desfiles não são a única forma de exibição das coleções. Mas sair da forma tradicional do desfile implica em redobrar a criatividade da apresentação. É preciso muito talento para conseguir mostrar as roupas num show diferente, não ortodoxo.
D: Como consumidor, o que você está gostando mais para o verão?
A.L: Gosto especialmente do modo como algumas grifes masculinas vêm utilizando a alfaiataria de maneira mais informal e cool.
28 de Agosto | 2008
The Catorialist



Confesso que nem sou tão chegado a gatos assim. Adoro mesmo os cachorros! Mas impossível não achar no mínimo engraçado o The Catorialist. O blog, óbvio, é uma brincadeira com o famoso The Sartorialist, site de street style que é super conhecido no mundo inteiro. Os títulos seguem bem o jeitão que o Scott Schuman costuma escrever. E os gatinhos são muito fofos! Quem é do time dos felinos, vai amar acessar.
28 de Agosto | 2008
Augusta em fotos


Eu já disse outras vezes aqui no Descolex que tenho paixão pela Augusta… Pra mim, não tem um lugar mais heterogêneo em São Paulo do que lá. Você vai do luxo a lixo numa mesma rua. E é por isso que fiquei mega feliz quando a Luana Lila, uma jovem e talentosa fotógrafa que trabalhou comigo no site da Lilian, me contou que venceu um concurso de fotojornalismo promovido pela USP com uma imagem da Augusta sob o tema mito. Mandou bem, Lu!
27 de Agosto | 2008
Quer aprender a grafitar?


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